Domingo, 26 de Agosto de 2007
http://fastfabula.blogspot.com
Pessoal... Resolvi mudar meu blog para outro site... na realidade, sua hospedagem pelo blogger é mais antiga que esta, pois era a que tinha escolhido inicialmente, mas misteriosamente meu computador não estava abrindo as páginas de blogs com o endereço blogspot... tentei incansavelmente uma semana, tentando ajuda de conhecidos, já que conseguia abrir qualquer site de blogs, menos onde começara a construir meu próprio... assim acabei escolhendo e gostando do Sapo... mas por ironia do destino (quem afinal pode entender os grandes mistérios destas máquinas?) meu computador agora abre maravilhosamente as páginas do blogger... bem, comecei a brincar então com as possibilidades deste outro site para testar, e realmente ele tem vantagens... a verdade é que gosto do Sapo, mas ele dá erros demais para postar, sexta-feira última levei cerca de quatro horas para conseguir postar, claro que não é sempre que isso acontece... Então decidi desenvolver este blog onde o tinha iniciado e passo aqui o endereço para vocês, lá já tenho postado os textos que estão aqui e faltam poucos, logo estarão todos lá... fico com pesar apenas de alguns comentários tão belos que recebi, mas fica o convite para seus autores realizarem um control C control V e deixarem no novo Fast Fábula este registro tão especial para mim... O melhor do Sapo foram dois leitores portugueses que adiquiri, e espero muito que continuem me acessando no blogspot... em especial Amadan... leiam o comentário que ele fez para Cecília e Fel, é melhor que meu texto... Agora amigos entrem rápido, o novo Fast Fábula começa com uma promoção bem interessante para os primeiros que comentarem o post Fast Fábula Delivery... (na realidade é uma brincadeira que estou pensando em fazer exporadicamente) E lembrando que este blog ainda continua por um tempo, vou postar tudo aqui também, para que possamos escolher a melhor hospedagem, contando com a opinião de vocês para tal... Acessem lá: http://fastfabula.blogspot.com Um grande abraço a todos!

publicado por Celso Amâncio às 16:00
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Sexta-feira, 24 de Agosto de 2007
Era uma Casa: I - O Desejo de Virgínia
 Virgínia tinha o desejo de uma casa grande e misteriosa, seu marido Martim particularmente não fazia questão, era um homem simples e gostaria de mudar-se para o interior, ou quem sabe para o litoral, mas a tudo isso Virgínia era indiferente, já que decidira não sair mais de casa. Era uma artista deprimida e dizia precisar de uma casa onde pudesse às vezes se esconder.
_ Essa casa tem que ser todo o meu universo!
Depois de visitarem muitos imóveis aquela casa parecia projetada nos sonhos de Virgínia. Martim temia muito pela sanidade de sua esposa, mas não podia resistir ao encanto de seus olhos quando suplicavam, ainda mais depois de ver a euforia dela correndo pelos corredores, desaparecendo num cômodo, ressurgindo em uma escadaria, deixando ecos de seus gritos...
Mas Martim não tinha recursos suficientes, havia apenas uma pessoa que poderia emprestar dinheiro a eles. Ainda estava na casa quando fez então a ligação decisiva: sentiu muito medo quando ouviu o prolongado simmmm de Tia Pecúnia...
(segundo capítulo vem na próxima semana, imagem de Munch)


publicado por Celso Amâncio às 01:22
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Quarta-feira, 22 de Agosto de 2007
Interlúdio

Queridos leitores... percebi que é hora de uma pequena reflexão sobre o caminho que toma este blog, já que não vos falo diretamente desde o primeiro post. Tudo é claramente explicável: minha idéia era ser um blog que, mesmo não se propondo em ser um diário, fosse um espaço de criação exposta, interativa e multifacetada... bem, comecei então com estes mini-contos e confesso que fui seduzido pelo esconderijo que eles me proporcionavam, ao mesmo tempo em que começaram a tomar uma linha que me interessou muito, tudo isso com o estímulo de vossos comentários Ò Meus Irmãos! Então pensei em fazer do Fast Fábula um blog exclusivo de mini-contos, sem poluição de qualquer outro tipo de texto. Mas o que fazer com os experimentos que planejara de início? Inclusive o que fazer com alguns personagens que prometi no primeiro post e que de repente não tinham mais espaço dentro do blog? Como se não tivessem o refinamento necessário e um padrão de qualidade misterioso que nem sei definir?

Aí pensei em deixar o Fast Fábula exclusivo para contos nesta linha que tenho desenvolvido e criar outro onde eu me permitisse mais liberdade, experimentos e brincadeiras. Mas isso é ridículo, não vou ser louco o suficiente para criar mais um blog (não que seja loucura ter mais de um, mas no meu caso seria) e resolvi que vou reincorporar um pouco da proposta inicial, se isto futuramente se fragmentar em outros blogs e em livros vendáveis, melhor ainda... claro que meu foco ainda serão os mini-contos, que têm me dado um prazer inesperado ante sua boa receptividade...

 

Então mais uma vez não percam, muitíssimo em breve:

Nádia e as Papoulas Punk

Fábulas Pitorescas: O Coelho Mascarado, O Dragão Igor e outras historinhas estranhas...

A continuação e os demais personagens de Era uma casa

E neste fim de semana: Fast Fábula Delivery, uma promoção imperdível!



publicado por Celso Amâncio às 23:15
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Terça-feira, 21 de Agosto de 2007
Tio Ludovico
 Em sua loja tio Ludovico vendia de tudo: livros velhos, móveis antigos, brinquedos, fantasias. Quando criança tínhamos o grande privilégio de brincar na loja quando ele encerrava o expediente. Então tio Ludovico se trancava no escritório e nós vislumbrávamos aqueles mundos ao alcance de nossas mãos! Criávamos uma infinidade de monstros e segredos, às vezes passando tanto tempo dentro do depósito ou dos guarda-roupas que confundíamos nossas identidades.
Então eu percebi que podia trocar minha realidade por qualquer uma daquelas fantasias da loja. Assim escolhi ser o príncipe de um país inventado: eu morava então num palácio gigantesco e tinha todos os míseros desejos atendidos por uma legião de servos. O único elo que tinha com a vida que abandonei era a loja de Tio Ludovico, a quem nunca deixei de fazer visitas semanais, pois ali encontrava artigos exóticos e conhecia os mais variados viajantes.
Os anos se passaram rápido em meu reino, já era o príncipe regente daquela terra quando aconteceu um encontro inesperado. Estava na loja do Tio Ludovico e fui interceptado por uma mulher. Seu olhar era triste e familiar, ao mesmo tempo carregado de uma esperança cega. Não entendia o que acontecia e perguntei se estava tudo bem, ela disse que não, que nada estava bem para ela há mais de vinte anos, quando seu filho entrou naquela loja e nunca mais voltou. Sorri um pouco sem jeito e disse que nada podia fazer por ela, mas a mulher me olhava ainda, como se em mim o tivesse encontrado. Pensei em fugir da loja, mas aquele olhar me petrificava. Perguntei a ela se por acaso não queria vir comigo para meu reino, onde eu também era um filho que perdera a mãe. Ela finalmente foi capaz de sorrir, agradeceu minha oferta e disse que jamais trairia seu filho, mesmo que ele estivesse morto.
Vaguei horas pelas ruas naquela tarde, algo em mim mudara depois daquela mulher, sentia-me confuso e tentando a lembrar da vida que abandonara, mas era inútil, na verdade não sabia mais quem eu era nem de onde vinha.
A loja de tio Ludovico era a única reminiscência de todo aquele passado. Então pensei: devo procurá-lo? Devo abandonar meu palácio e encontrar o que realmente sou?
Com muito dor tomei uma decisão: ordenei que meus guardas expulsassem Tio Ludovico para sempre de minhas terras.
Agora todas as noites sonho com um monstro horrendo que me devora.
(imagem de Miró)


publicado por Celso Amâncio às 01:49
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Segunda-feira, 20 de Agosto de 2007
Os Amantes

Foram descobertos pela manhã, dormindo num canto da praça.

Primeiro foram alguns moleques que cercaram ávidos o casal nu e ainda adormecido, depois o bêbado da praça que rememorou amores antigos numa cantilena irreconhecível, veio então o pipoqueiro, que foi chamar o vendedor de cachorro-quente e logo algumas senhoras ruborizadas diante de tão incrédulo despudor.

Em poucos minutos toda a praça transbordava em gargalhadas e insultos, saboreando as delícias do escândalo.

O casal acordava lento, ainda tão embriagados um pelo outro que nem puderam fugir e se recompor quando as mãos avançaram sobre eles.

E em júbilo de vingança toda a multidão comungou faminta o amor proibido.



publicado por Celso Amâncio às 03:10
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Sábado, 18 de Agosto de 2007
Fel e Cecília
Para Fabiana
Havia tanto de Fel e Cecília nos discos que em algumas noites não conseguiam escolher o que ouvir! Talvez Piazzola? Como na primeira noite em que ela estivera lá e revelara como seus tangos a faziam arrepiar! Arrepiar-se onde não devia! Uma música que faz amor lento, dedicado, repleto de paixão sincera. Ou o velho Villa? Que tanto ouviram e poderia levá-la a outros estados, a vôos em florestas de araras gigantes ou mergulhos em pântanos lamacentos, mas cheios de tuiuiús solenes e Iaras de cabelos negros. Quem sabe um pouco de Stravinsky? Um pouco de sua selvageria orgânica, como na noite em que ela dançou bêbada no quintal adorando a terra, o céu, as estrelas, o infinito da noite. Música que vinha emaranhada com os sons mais profundos de si e despertava-lhe risos de louca.
Quando Cecília partiu a música perdeu o sentido para Fel...
Restou-lhe naquela época um silêncio tão ausente de sensações que nem mesmo a solidão doía.
Perdia então algumas noites tentando inutilmente escolher a música para o dia em que ela voltasse.


publicado por Celso Amâncio às 01:23
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Quarta-feira, 15 de Agosto de 2007
A Outra
 Magda podia conviver com qualquer um de seus problemas, mas não podia aceitar aquela outra que morava dentro do espelho.
Descobriu isso numa tarde em que apenas experimentava sapatos, quando inocentemente percebeu que aquelas pernas não eram dela.
_ Me desculpe... mas essas pernas não são minhas...
A lojista respondeu:
_ Quanto a isso nada podemos fazer madame, aqui não vendemos pernas.
A partir de então a outra passou a ocupar-lhe o reflexo. E mesmo que Magda a enxotasse com insultos e ameaças a outra pouco se importava, encarando Magda com ar de desprezo respondia ríspida:
_ Morra de inveja! Sou mais bonita!
Sem suportar tal despeito Magda retirou todos espelhos de sua casa e resolveu que a partir de então nunca mais veria sua imagem. No começo foi estranho, mas rapidamente se viu tão despida de vaidade que resumiu todo seu guarda-roupa a singelos vestidos azuis.
Um dia passou por acaso perante um espelho e viu que a outra não estava mais lá, ao invés dela havia uma mulher simples e insossa de olhos cândidos.
Apaixonou-se tão perdidamente que voltou a maquiar-se e vestir-se com esmero para seduzir a todo custo aquela nova mulher!
(imagem de Picasso)


publicado por Celso Amâncio às 19:10
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Terça-feira, 14 de Agosto de 2007
Um Fantasma
 
Maurice Denis
Mesmo depois de morta Joana não conseguiu aplacar o rancor que nutria de seus familiares.
Resolveu então que seria um eterno fantasma na vida do marido, dos filhos e netos... sempre lembrando-lhes o quanto foram displicentes com seus sentimentos e como sacrificara toda sua felicidade por aqueles que nem foram capazes de construir-lhe um túmulo digno!
No começo todos se assustavam, mas reconheceram suas falhas e decidiram homenagear Joana com um mausoléu belo e aconchegante. Porém mesmo assim Joana reclamava: o mármore branco sujava muito, as flores eram constantemente roubadas, o sol era forte demais no começo da tarde... Tantos eram os caprichos que todos acabaram dispondo grande parte de seu tempo cuidando da beleza e asseio daquele jazigo.
E enquanto eles estavam no cemitério Joana respirava aliviada...
Encostando-se preguiçosa no sofá finalmente apreciava a harmonia de sua casa.


publicado por Celso Amâncio às 03:15
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Domingo, 12 de Agosto de 2007
Era uma casa
 Logo quando mudaram perceberam que aquela não era uma casa comum. Eram tantos cômodos que se enchiam de prazer mesmo ao perder-se dentro de seus mistérios.
Mas aconteceu que de repente a casa não era mais deles.
Isso começou quando os velhos amigos de sempre chegaram para a festa de inauguração e não foram mais embora.
Não se importaram porque afinal a casa era grande e abrigava a todos. E por um tempo era como se nunca se interrompesse a alegria desvairada da festa.
A confusão começou quando resolveram trancar Gregor no porão...
Gregor parecia ser o motivo de toda discórdia que ameaçava o clima festivo: ele reclamava de tudo, lançava indiretas maliciosas e começava a mostrar um mau-humor intolerável.
A decisão foi unânime e não hesitaram mesmo quando viram o pobre debater-se e suplicar que tinha medo de escuro, tão pouco recordaram que Gregor era um dos donos da casa.
Mas assim que bateram a porta pesada pouco tempo de alívio puderam respirar, já que uma dúvida terrível assolava a todos:
Quem seria o próximo a ser trancado no porão?


publicado por Celso Amâncio às 21:57
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Sábado, 11 de Agosto de 2007
O Sonhador
Sonho de Dalí
Era um sonhador não por ser escravo de desejos inalcançáveis, mas simplesmente porque não conseguia parar de sonhar quando acordado.
E quantas maravilhas e pesadelos vivia em plena vigília!
Porém sofria, desde criança. Era tido como louco até pelos pais, que várias vezes tentaram internações em hospitais psiquiátricos, tratamento com drogas fortes e eletrochoques...
Ainda assim o perseguiam as figuras oníricas, hora atormentado por um duende, pego em conversas com uma tia morta, ou ainda gritando de medo ante uma serpente dançando em seus pés.
Tanto sofria que com quinze anos resolveu se matar!
Preparou-se para um ato definitivo, subiu ao topo de seu prédio, no vigésimo andar, e até sentia o coração em disparate quando saltou:
 Mas qual foi sua decepção ao abrir os olhos!?
Ao invés de se arrebentar seu corpo simplesmente planava, com a leveza de uma pipa sobre o infinito de um céu macio.


publicado por Celso Amâncio às 01:58
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